2k37 Editorial | Carta #5: a quem interessar possa.

Tempo aproximado de leitura: 5-7 minutos.

💡 A morte das redes “sociais”: uma ressurreição para a arte.

Se alguém em 2010 me dissesse que as redes sociais morreriam, eu provavelmente riria. Era o auge do Facebook, do Twitter, e o Instagram estava apenas começando a conquistar os corações dos internautas. Mas agora, em 2023, a realidade é inescapável: a mídia social como a conhecemos morreu.

E a pergunta que deve ser feita é: por que lamentar?

💡 O caráter social do comportamento online se dilacera enquanto a arte respira aliviada.

O que outrora foi visto como uma plataforma democrática para expressão artística e musical tornou-se um campo minado de estresse, pressão e "rushs" baratos de dopamina. Pessoas ludibriadas por uma overdose infocrática, em um mundo onde o valor de uma obra de arte é determinado pelo número de curtidas e compartilhamentos, não pela sua mensagem, sua intenção, sua beleza.

Lembre-se do efeito do holofote, que mencionei na Carta #3, o qual nos ilude a acreditar que olhares de julgamento estão observando nossos movimentos.

💡 Mas a verdade é que somos apenas plânctons no vasto oceano digital.

E como a ilusão da transparência nos engana ao acreditar que todos entendem perfeitamente o que expressamos, as motivações artísticas de quem sonhava apenas em se expressar musicalmente foram ludibriadas.

Mas a morte da mídia social não é o fim. Longe disso. É uma oportunidade para um renascimento, uma ressurreição da arte em sua forma mais pura.

💡 A arte vive. A arte respira. A arte se move além das redes sociais.

Existem outros lugares para os artistas se expressarem, outros espaços que abraçam a criatividade sem a pressão do "like". Plataformas como Youtube, Twitch, Mixcloud, Soundcloud e Bandcamp estão trabalhando incansavelmente para criar espaços seguros para a criação e monetização do trabalho artístico.

Isso é relevante, porque nos remete à crise abordada na Carta #4. DJs e produtores estão lutando para sobreviver em meio à crise do custo de vida, em um mundo onde as oportunidades para apresentações ao vivo são escassas.

Nesses espaços digitais alternativos, artistas têm a chance de continuar a criar, a expressar, a se conectar com seu público, a viver a música, mesmo quando a vida noturna se cala.

Mas fica a provocação: se o tempo gasto para promover um trabalho artístico via social media é maior e mais intensamente vivido do que qualquer processo criativo artístico, estamos vivendo uma ilusão em que artistas se comportam como influencers e a arte se afasta das ruas atingindo um caráter algorítmico cartesiano, como nos tempos de Pitágoras?

Não me interpretem mal. Não estou sugerindo que abandonemos completamente as relações digitais em comunidades sociais. Mas talvez seja hora de repensar nossa relação com essas plataformas.

Talvez seja hora de redefinir nossas expectativas, de lembrar que a arte é mais do que um produto a ser vendido, mais do que um meio para adquirir seguidores e likes.

A arte é uma expressão do ser. É um espelho de nossos sentimentos, nossos medos, nossas esperanças. É um meio de conexão, um meio de comunicação.

E, talvez, a crise identitária digital seja a oportunidade que precisamos para trazer a arte de volta às suas raízes, para resgatá-la das garras do algoritmo e devolvê-la às mãos dos artistas.

Com esperança e resistência,

Lucas M. Prado

P.S.: Esta é a última carta desta série. Mas a discussão não acaba aqui. Vamos continuar conversando, compartilhando, questionando. Porque é assim que crescemos, que evoluímos, que criamos um futuro melhor para a arte, para a música, para nós.

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